Um gesto, uma lição




De todas as histórias que eu ouvia quando era criança, uma das que mais gostava era a do garoto e o colar. Ela nos mostra a essência de um simples gesto, regrado à inocência, à real intenção desprovida de qualquer sentimento diferente do amor e gratidão. Ela traz o bom e velho discurso sobre valores, sobre o que pode ser mais importante, sobre o quanto o caro e o barato podem ser relativos. Tudo é uma questão de ponto de vista.


Essa história nos conta de um garoto que andava pela cidade observando atentamente algumas vitrines. Ele seguia pela calçada, às vezes entrava em algumas lojas e era seguido de perto pelos vendedores onde passava. Não pelo interesse na comissão de uma possível venda, mas por instinto de precaução, vamos dizer assim. Um garoto de não mais que sete anos, humildemente vestido com aquilo que ele parecia ter de melhor. Chinelo de dedo, um short surrado e uma camiseta que parecia ter sido doada pelo irmão mais velho.


Na rua por onde seguia, havia uma sequência de lojas de roupas, bijuterias, acessórios de vestuário, entre outras de aparente desinteresse por parte de uma criança dessa idade. Ainda assim, ele continuava atento às lojas e seus produtos. Não era uma rua tão grande, de modo que ele ia e voltava várias vezes, chamando a atenção dos donos e funcionários dos estabelecimentos. Ele parecia estar sozinho e nunca tirava uma das mãos do bolso.


Ao, finalmente, parar em frente a uma delas, olhou para os lados, tirou a mão do bolso e colocou as duas apoiadas na vitrine, chegando o rosto o mais próximo que o vidro permitiu, para observar melhor o que estava do lado de dentro, um lindo colar. Ao ver o garoto, o dono da loja saiu detrás do balcão, foi até a porta e fingiu observar a rua, apenas para que o garoto notasse sua presença. O garoto não se intimidou. Voltou a colocar uma das mãos no bolso, ignorou a presença do dono da loja na porta e entrou.


– O senhor trabalha aqui? – perguntou o garoto.


– Sim. – respondeu o dono da loja. – O que você quer?


– Quanto custa? – perguntou o garoto, apontando o dedo da mão desocupada para o colar (a outra continuava no bolso).


– Caro. – respondeu o dono da loja sabendo claramente que ele não teria como comprá-lo.


E então, finalmente o garoto tirou do bolso aquilo que ele tanto protegia, um papel enrolado que escondia várias moedas, que somadas, obviamente não tinham um valor significativo. Ele desenrolou o papel sobre o balcão, revelando o conteúdo.


– Isso dá? – perguntou ele.


O dono da loja, obviamente, não se deu ao trabalho de contar as moedas. Apenas juntou-as novamente, embrulhou e devolveu, dizendo ser insuficiente. O garoto se mostrou totalmente frustrado, sem ter a noção da diferença entre os valores, guardou o embrulho, agradeceu e foi em direção à saída.


– Por que queria esse colar? – perguntou o dono da loja ao garoto antes que ele cruzasse a porta.


– Era para minha irmã, é aniversário dela hoje. Desde que minha mãe morreu, é ela quem cuida de mim e eu gostaria de dar esse presente à ela.


O dono da loja encheu-se de compaixão e percebendo a intenção e o gesto do garoto, teve ainda um gesto maior, pediu que ele voltasse e lhe deu o colar em troca de todas as moedas. Algumas horas depois, o garoto retorna à loja puxado pelo braço por uma jovem de, no máximo quinze anos, com o mesmo colar nas mãos.


– Desculpe senhor, meu irmão disse ter comprado esse colar aqui e sei que ele não tinha dinheiro para isso. Perdoe-me pelo que ele fez. – disse a jovem.


– Admiro seu gesto e seus valores, menina, mas o garoto disse a verdade.


– Sei que esse colar é caro senhor, e ele não tinha dinheiro para comprá-lo.


– Seu irmão pode não saber o preço desse colar, mas ele pagou por ele o maior valor que alguém poderia pagar.


– Como assim?


– Ele deu tudo que tinha.



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