Trânsito, espaço disputado



Lembro-me bem do meu pai dizer certa vez, em uma conversa na sacada de casa, ao observar o trânsito:


— Veja como a cidade está cheia de motos!


Ele tinha razão. O número de motos aumentara demais, e quase já não era possível contá-las nos dedos. Dez ao todo, levando-se em conta uma ou duas, não me lembro bem, pertencentes ao município vizinho, Caetanópolis. Não. Essa conversa não foi há tanto tempo assim, exceto pelos mais jovens. Coisa de trinta e poucos anos. Parece um tanto surreal que tal conversa tenha ocorrido em um tempo nada “jurássico”, ainda que no século passado, dada a impossibilidade de atualizar esses números nos dias de hoje, seja tratando-se de motocicletas ou carros.


É inegável que, apesar de todos os problemas que o país sempre enfrentou e continua enfrentando, nosso poder aquisitivo ganhou certa consistência, que permitiu-nos elevar ao status de rico de um tempo passado não tão distante, onde apenas a classe em questão era capaz de comprar um carro ou moto novos. Com isso, todos ganhamos, ou perdemos, ainda não sei. O fato, é que não apenas preenchemos o vazio das garagens de nossas casas, mas também o vazio das ruas antes tranquilas, da nossa cidade. Não há mal nisso, tudo faz parte da evolução, e como tal, deve ser vista com bons olhos. Mas o espaço agora é menor, e como consequência, mais disputado.


Motoristas de caminhões, ônibus, vans, carros, motociclistas e ciclistas, pedestres, todos usufruindo o sagrado direito constitucional de ir e vir, em um espaço que parece desproporcional ao fluxo à cada dia. Acredite, há lugar para tudo e todos desde que a evolução ou a modernização, não prejudiquem conceitos antigos e cada vez mais raros nesse emaranhado que a gente costuma chamar de trânsito. Educação e bom senso.


É comum achar que o outro está sempre errado, independente do meio de transporte utilizado. Quando você está à pé, acha que o motorista deveria ter esperado, diminuído, sinalizado a intenção de conversão, principalmente porque eles só sinalizam (quando o fazem), para outros motoristas e se esquecem dos pedestres. Quando você é o motorista, acha que os pedestres andam sempre no meio da rua e nunca temem os carros que precisam desviar e nunca reclamar a respeito, sob pena de ouvir o famoso “passa por cima”. Xingam incansavelmente os motoristas de caminhões que se arrastam pela cidade “atrapalhando” o fluxo, assim como os ciclistas que são vistos quase como delinquentes. Mas aqui vai um recado: TODOS TEM O MESMO DIREITO! Mas também o DEVER de fazê-lo com bom senso e educação, e isso não é garantido por aqueles que possuem CNH, mas berço.


A cidade precisa crescer, se movimentar, e cada um o faz à sua maneira, respeitando a máxima de que o seu direito termina onde começa o do outro. As leis de trânsito existem e estão aí para serem cumpridas, mas não funcionam melhor que o velho bom senso, seja você pedestre, ciclista, motorista ou motociclista. Seja educado. Esse espaço não precisa ser disputado, apenas dividido.


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